Pesquisa estuda como a química das impressões digitais evolui ao longo do tempo e contribui para responder uma das perguntas mais difíceis da ciência forense: quando uma impressão digital foi produzida.

Por décadas, a papiloscopia respondeu com precisão a uma pergunta central nas investigações criminais: quem esteve em determinado local, desde que a impressão digital apresente condições técnicas adequadas para o confronto papiloscópico. Mas e quando essas condições não estão presentes, quando não há linhas suficientes para comparação? Nesses casos, outra questão, igualmente decisiva, ganha protagonismo e permanece sem resposta: quando essa impressão foi deixada?

Um estudo brasileiro publicado na revista Scientific Reports, periódico internacional da editora Springer Nature, pertencente ao grupo Nature, avança justamente sobre esse ponto cego da ciência forense. Embora ainda não exista uma solução definitiva, uma “bala de prata” para a datação de impressões digitais, a pesquisa apresenta evidências promissoras de que é possível estimar o tempo de deposição a partir da análise de sua evolução química ao longo dos dias.

Um dos autores do estudo é o Papiloscopista Policial Federal Marco Antonio de Souza, que atua no Instituto Nacional de Identificação da Polícia Federal. Doutor em Nanociência e Nanobiotecnologia pela Universidade de Brasília (UnB), com formação em Química e Engenharia da Computação, dedicando-se a estudos que aplicam técnicas espectroscópicas à análise química de impressões digitais.

A química invisível do tempo

Ao contrário do que sugere o senso comum, uma impressão digital não é apenas um padrão de linhas. Ela carrega uma assinatura química complexa, composta por água, lipídios, aminoácidos, sais e diversos compostos orgânicos e inorgânicos, que começa a se transformar a partir do contato com uma superfície.

Foi justamente essa “transformação química” de substâncias contidas nas impressões digitais que os pesquisadores decidiram investigar.

Utilizando espectroscopia Raman, uma técnica capaz de identificar moléculas sem danificar a amostra, o estudo acompanhou a degradação de componentes das impressões digitais por um período de até 90 dias, em condições controladas de laboratório.

Os resultados mostram que diferentes substâncias seguem ritmos próprios de degradação,  criando uma espécie de “relógio químico”.

Um relógio molecular nas pontas dos dedos

Dentre as substâncias estudadas, destacam-se duas delas:

  • Carotenoides: compostos ligados à alimentação, que se degradam rapidamente, em alguns casos, tornando-se praticamente indetectáveis em poucos dias;
  • Lipídios: mais estáveis, que sofrem transformações graduais ao longo de semanas, incluindo processos de oxidação e alterações em sua estrutura química.

Os carotenoides apresentaram um comportamento previsível, om uma redução progressiva ao longo do tempo, podendo cair pela metade em um intervalo de aproximadamente 8 a 16 dias, a depender do indivíduo.

Já os lipídios revelaram um padrão mais complexo: no início, as mudanças ocorrem de forma lenta, mas após cerca de 40 dias, a degradação se intensifica.

Na prática, essas transformações permitem estabelecer padrões temporais mensuráveis, um passo essencial para a futura “datação” de impressões digitais.

Impacto direto na Justiça

Hoje, a presença de uma impressão digital em um local pode ser interpretada de diferentes formas no contexto judicial. Um suspeito pode alegar, por exemplo, que esteve no ambiente dias ou semanas antes do crime.

A possibilidade de estimar o tempo de deposição da digital pode alterar profundamente esse cenário.

Entre as principais aplicações estão a distinção entre uma presença legítima e um possível envolvimento no crime, o fortalecimento ou enfraquecimento de álibis, a redução de ambiguidades na interpretação das evidências e o aprimoramento da base científica que sustenta decisões judiciais.

Mais do que indicar quem esteve em um local, esse avanço aponta para uma perícia capaz de compreender em que contexto e em que momento aquela evidência foi produzida, ampliando de forma relevante o valor da prova.

Limitações e desafios

Apesar dos resultados promissores, os próprios autores destacam que a técnica ainda está em fase inicial de desenvolvimento, classificada como prova de conceito.

Um dos principais desafios identificados é a variabilidade entre indivíduos. Fatores como dieta, metabolismo, uso de cosméticos e condições ambientais influenciam diretamente a composição e a degradação das digitais.

Na prática, isso indica que, antes de uma aplicação efetiva em investigações, ainda será necessário avançar em algumas frentes essenciais, como ampliar o número de amostras analisadas, testar o método em diferentes condições ambientais  (incluindo variações de luz, temperatura e umidade) e validar, de forma consistente, como esses fatores impactam a estimativa do tempo de deposição das digitais.

Ciência brasileira em destaque internacional

O estudo também evidencia o protagonismo crescente do Brasil na produção científica em ciência forense, reunindo pesquisadores da Universidade de Brasília e da Polícia Federal.

Publicado em um periódico de uma das mais prestigiadas plataformas científicas do mundo, o trabalho posiciona a pesquisa brasileira no centro de uma das discussões mais relevantes da perícia contemporânea.

Uma nova fronteira da papiloscopia

Os resultados podem ajudar na inauguração de uma nova era na identificação humana: a capacidade de extrair não apenas a identidade de uma impressão digital, mas também sua história no tempo.

Ou seja, transformar uma evidência estática em um elemento dinâmico, capaz de narrar quando o suspeito esteve na cena do crime.

📎 Acesse o artigo completo: https://www.nature.com/articles/s41598-025-32986-9